Casos da Vida #2

domingo, janeiro 07, 2018

Olá Sonhadoras(es)!

Tudo bem com vocês? Espero que o vosso fim-de-semana esteja a ser bom e, de preferência, bem quentinho. A temperatura baixou tanto que nem é bom pensar no frio que faz lá fora! Para uma friorenta como eu, só apetece estar em casa, rodeada de mantas, meias hiper quentes nos pezinhos e uma caneca de chá a aquecer as mãos enquanto  bebericamos e reconfortamos corpo e alma. Sabe tão bem! A isto se chama - pequenos prazeres desta vida.

Há muito que não escrevia sobre o tema que hoje me trouxe até ao blogue - casos da vida - partilha de factos/acontecimentos que vivenciei e que, por algum motivo, fez-me reflectir e tirar algumas conclusões. 


No primeiro dia do ano, ao remexer numa pilha de jornais procurando por uma notícia que os meus pais me queriam mostrar, dei com um artigo que me deixou triste e, na verdade, me afectou. Essa notícia, relatava a morte de um sem - abrigo que pernoitava em frente a um supermercado na Avenida da República em Vila Nova de Gaia. Já tinha passado pelo local várias vezes e pensava sempre se ele estaria a precisar de algo: comida, roupa, uma palavra de conforto, um simples cumprimento ou sorriso que, por vezes, nos "salva" o dia e nos faz sentir que valeu a pena acordar.

No entanto, nunca vi o rosto deste homem. Não sei quais eram as suas feições, se era novo ou de alguma idade, magro, o que o tinha levado a viver na rua, etc. Tantas perguntas que ficam por responder. 
E porquê?! 

Agora vêm as tão famosas e vergonhosas desculpas! Por norma, via apenas o cobertor que o envolvia sempre por volta das 23h30m. Era tão tarde, vinha do emprego, sem jantar, tantas vezes com uma enorme vontade de ir a correr para o automóvel e conduzir até casa depois de trocas de metros e tempos alargados de espera, com a cabeça a latejar e a pensar que só desejava ir a correr para o meu refúgio, o aconchego do lar. Deixei sempre para amanhã, para o dia depois desse, para a próxima semana. Acabei por adiar constantemente e perdi a oportunidade de conhecer esse ser humano e, quem sabe, de mudar o seu dia/noite nem que fosse por breves instantes. 

A falta de tempo, sempre a maldita falta de tempo!  A correria desenfreada entre faculdade e emprego, as prioridades tantas vezes invertidas, o pensar mais em mim e no meu conforto do que em quem realmente precisa de atenção e ajuda. Provavelmente, pouco poderia contribuir para a mudança daquela vida, no entanto, fica a dúvida e a mágoa por não ter tirado um pouco do meu tempo e partilhado com quem necessitava. 

Não sei a causa da morte deste senhor, até ao fecho do jornal ainda não sabiam qual o motivo do óbito. Este homem passou um dia inteiro, uma quinta-feira (a última de  2017) no mesmo local e ninguém se apercebeu que ele tinha falecido. Só na sexta-feira de manhã,  quando os funcionários do estabelecimento comercial precisaram de aceder ao armazém para reabastecer a mercadoria, é que verificaram que algo não estava bem e que este senhor já não estava vivo. Um ser humano jazia na calçada e ninguém se apercebeu do seu estado. 

Dói só de pensar! 

Andamos numa azáfama, num lufa - lufa diária que nem observamos com clareza o que nos rodeia, nem parámos um pouco para saber como o outro está. Marcou-e imenso este acontecimento! Eu fui daquelas pessoas que passou na correria e procrastinou o contacto com este senhor. Arrependo-me desta atitude, da falta de tempo para dar ao outro, seja ele um desconhecido ou até um familiar. Estamos sempre a adiar a tomada de uma atitude, mas esquecemo-nos que o amanhã pode não chegar e que podemos não ter uma nova oportunidade.

Fico a pensar no quanto deixei por fazer, nas escolhas erradas que fiz, na importância que dei ao que poderia ser relevado para segundo, terceiro ou último lugar na minha lista de prioridades. Aprendi que há coisas, gestos, atitudes, palavras que não devem ser protelados!

Há uma citação que retrata perfeitamente o que sinto: "Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida!". Na verdade, nada volta, pois quando volta, já não é mais a mesma que foi.

Não adiem os vossos sonhos nem protelem o que vos faz felizes! Este é o meu desejo para 2018.



Para terminar, gostaria de partilhar este texto maravilhoso da autoria de Otto Lara Resende:
O monstro da indiferença
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isso: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê, não vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos é familiar já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio. Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo porteiro. Dava-lhe "bom dia" e, às vezes, lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia, o porteiro cometeu a descortesia de falecer. Como era ele? Sua cara, sua voz, como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia, no seu lugar estivesse uma girafa cumprindo o rito, pode ser que ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas, há sempre o que ver: gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos. Uma criança vê o que um adulto não vê, pois tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho, marido que nunca viu a própria mulher.
Isso exige muito. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Um grande abraço e até breve! 
💜

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